Resumo executivo (TL;DR)

O que este estudo permite afirmar em 4 frases

  • A mortalidade está estável no alto. O Brasil registra cerca de 1.300 mortes de ciclistas por ano há mais de uma década. Três métodos independentes (SIM direto, método OMS sobre 2016, SIM 2023) convergem na faixa de 1.250 a 1.380.
  • A faixa grave dispara. As internações cresceram 71% na década (9.238 em 2014 para 15.573 em 2023). A razão internação por óbito subiu de 6,8 para 12,1. A pirâmide de gravidade está mudando de forma, e as lesões leves seguem sem contagem nacional.
  • O risco se concentra no ciclista urbano. Estimativa de 7 a 17 milhões de ciclistas utilitários (base ~12 mi) contra 3,5 a 5,5 milhões de esportivos. Razão urbano para esportivo: de 2 a 3 para 1. A morte acontece em via compartilhada com carros, não na trilha.
  • A política deveria mirar o utilitário. 60% das mortes são atropelamentos. O custo direto anual do SUS com ciclistas feridos, cerca de R$ 15 milhões, é fração do custo social real. Tornar o ciclista urbano visível, no dado e na política, é o ponto de virada.

1. Por que este estudo existe

Pedalar no Brasil mata cerca de quatro pessoas por dia, e o número não cai. Apesar disso, o país tem um problema de informação: nenhuma base oficial classifica o acidente pelo propósito do pedal. Não se sabe, no dado, quem se acidentou indo ao trabalho e quem se acidentou treinando. Os sistemas de saúde registram o mecanismo do acidente, não a finalidade de quem pedalava.

O IMPS convive com essa lacuna na prática: mantém um mapeamento colaborativo de ocorrências justamente porque o registro oficial é incompleto. Este estudo formaliza, com método, o que se pode afirmar a partir do que já existe, e deixa explícito o que ainda não se pode medir.

A leitura do D.Lab trata segurança no trânsito como decisão sob incerteza: a pessoa escolhe rota, horário e equipamento a partir de uma percepção de risco que pode ou não estar calibrada com o risco real. Calibrar essa percepção, com dado público auditável, é parte do que faz um estudo aplicado entregar valor de política.

Por que você deveria ler isto
Se você atua em mobilidade, saúde pública, segurança viária ou política urbana, este estudo entrega três coisas que importam:
  • Uma contagem auditável das mortes e internações, com três métodos independentes que convergem.
  • A separação entre ciclista urbano e esportivo, com a faixa de incerteza explícita e a álgebra correta para combinar fontes.
  • A leitura de para onde o esforço de política deveria ir, ancorada em mecanismo, perfil de vítima e geografia.

2. Pergunta, método e hierarquia de fontes

Pergunta central. O que os dados públicos permitem afirmar, com confiabilidade, sobre a sinistralidade de ciclistas no Brasil, sua gravidade e a divisão entre uso urbano e esportivo?

Objetivos

  1. Estimar a mortalidade e a morbidade de ciclistas e validar essas contagens por métodos independentes.
  2. Descrever a gravidade dos eventos em três níveis: leve, grave e fatal.
  3. Caracterizar quem morre e quem se machuca (idade, sexo, geografia, mecanismo).
  4. Estimar a proporção entre ciclistas urbanos e esportivos.
  5. Documentar o nível de confiança de cada achado e as lacunas remanescentes.

Como classificamos as fontes

Estudo de dados secundários, sem coleta primária e sem submissão a periódico, publicado em acesso aberto. Cada número foi classificado por nível de confiabilidade da fonte, e as conclusões se apoiam apenas nas fontes mais robustas.

Hierarquia de fontes adotada
TierConfiançaFontesUso
Tier 1AltaSIM e SIH (DATASUS), PNAD 2015 (IBGE), PNS (IBGE), IPEA, OMS / PAHO, artigos revisados por paresÂncora para todas as afirmações de alta confiança.
Tier 2MédiaAbramet, Aliança Bike, Abraciclo, Perfil do Ciclista, frota estimada via POF / IBGETriangulação e contexto.
Tier 3DescartadoPesquisas comerciais, painéis online, listas e rankings de mercadoNo máximo contexto. Nunca âncora.

O conjunto de métodos usados

A reconciliação combinou contagem direta de microdados, aplicação de proporções da OMS, álgebra de conjuntos e auditoria de consistência com sete verificações independentes. Cada uma é descrita na seção de reprodutibilidade.

Contagem SIMMétodo OMSContagem SIHÁlgebra de conjuntosTriangulaçãoAuditoria de consistência

3. Mortalidade: estável no alto

O SIM registra perto de 1.300 mortes de ciclistas por ano. A série mostra um vale em 2016 (1.262) e um repique para 1.381 em 2021. Entre 2014 e 2024, foram 14.834 óbitos. Em perspectiva histórica, a participação dos ciclistas nas mortes do trânsito subiu de 1% (396 mortes) em 1998 para 4% (1.556) em 2008, e estabilizou no patamar atual.

Óbitos de ciclistas no trânsito no Brasil, 2010 a 2021
Série anual de causa básica. Valor de 2020 derivado.
vale: 1.262 em 20162010201220142016201820201.5131.3811.5001.200900
Fonte SIM/DATASUS · compilação D.Lab a partir dos microdados oficiais

4. Validação cruzada por três métodos

A contagem não vem de uma fonte só. Três métodos independentes convergem em uma faixa estreita:

Três métodos independentes, mesma resposta
SIM diretoOMS 3,4% × totalSIM 20231.3001.3141.288faixa de consenso: 1.250 a 1.380
Confiança alta na ordem de grandeza. Quando três métodos com pressupostos diferentes apontam para a mesma faixa, o número resiste a contestações de pressuposto isolado. A incerteza residual está nos decimais, não na ordem de grandeza.

5. Gravidade: a pirâmide leve, grave, fatal

Olhar só para mortes esconde o tamanho do problema. A leitura honesta exige a pirâmide de gravidade:

Pirâmide de gravidade dos sinistros com ciclistas
FATAIS~1.300 / anoGRAVES (internações SUS)~15.000 / anoLEVES e quase acidentesnão mensurado nacionalmenteTier 1Tier 1Lacunarazão ~12 : 1

Fontes: Fatais, SIM. Graves, SIH (9.238 em 2014 e 15.573 em 2023). Leves, sem contagem nacional consolidada.

A razão é de aproximadamente 12 internações para cada óbito, e abaixo dela existe uma base de lesões leves que ninguém mede.

6. Quem morre e quem se machuca

Cerca de 80% das vítimas fatais são homens. As mortes concentram-se na faixa de 50 a 59 anos, enquanto os feridos atendidos tendem a ser mais jovens (pico entre 25 e 34 anos), o que sugere perfis de exposição distintos por idade. Geograficamente, cerca de 60% das mortes ocorrem no Sul e no Sudeste, com São Paulo liderando as internações.

Vítimas fatais
~80%
são homens
Pico de mortes
50–59
anos
Pico de feridos
25–34
anos
Concentração
~60%
Sul + Sudeste
Mecanismo. Cerca de 60% das mortes são atropelamentos e o principal tipo de evento é a colisão de bicicleta contra automóveis. O trânsito compartilhado com veículos motorizados é o fator de insegurança dominante. Esse é o elo entre o mecanismo do acidente e o perfil da vítima: a morte acontece, predominantemente, no ambiente do ciclista urbano que divide a via com carros, não na trilha do esportista.

7. Urbano e esportivo: quantos são

Não existe contagem oficial por propósito, então a estimativa é uma triangulação de fontes, apresentada em faixa.

Faixa estimada de ciclistas brasileiros (15+)
Urbano
utilitário
12 mi
7 a 17 mi
Esportivo
recreativo
4,5 mi
3,5 a 5,5 mi

Esportivo, âncora: PNAD 2015 (IBGE), ciclismo ~9% dos praticantes de esporte e atividade física. Urbano, âncoras: IPEA (7% usam bicicleta como transporte principal) e prevalência de uso para trabalho medida em estudo de base populacional.

Achado central
Razão urbano para esportivo: de 2 a 3 para 1

A leitura é direcionalmente estável e ganha apoio no mecanismo dos acidentes. O ciclista urbano utilitário, em geral de menor renda, é maioria e é quem mais morre, ao contrário do imaginário que associa a bicicleta sobretudo ao lazer. Política e infraestrutura desenhadas para o ciclista esportivo perdem o público que mais precisa de proteção.

8. A armadilha do método: por que não basta subtrair

Tentar obter o urbano subtraindo o esportivo do total não funciona, porque os grupos se sobrepõem. Quem vai ao trabalho de bike e pedala por lazer no fim de semana está nos dois. A forma correta é a álgebra de conjuntos:

Por que não basta subtrair: os grupos se sobrepõem
UrbanoutilitárioEsportivorecreativoAmbosnão mensuradoTotal = Urbano + Esportivo − AmbosA sobreposição só se mede com fonte que registre os dois comportamentos na mesma pessoa
Por que isso importa. Subtrair sem reconhecer a sobreposição infla artificialmente um dos grupos e gera política mal calibrada. O caminho honesto é declarar a faixa e a incerteza estrutural remanescente até que uma fonte com microdados por respondente (PNS, PNAD) permita medir a interseção.

9. A tesoura: 12 internações por óbito e crescendo

As mortes ficaram estáveis enquanto as internações dispararam. A razão internação por óbito subiu de 6,8 em 2014 para 12,1 em 2023. A faixa grave cresce mais rápido que a fatal, o que é consistente com mais gente pedalando, mais exposição, sem piora proporcional da letalidade por evento.

A tesoura: internações sobem, mortes ficam estáveis
Internações em amarelo (SIH), mortes em vermelho (SIM). Razão internação por óbito sobe de 6,8 para 12,1 na década.
9.23815.5731.3501.28820142016201920212023Internações +71%Mortes estáveis
Fonte SIM e SIH/DATASUS · compilação D.Lab

10. Mapa de confiança

Cada achado foi consolidado num registro com fonte e nível de confiança, e submetido a uma auditoria automática de consistência com sete verificações, todas aprovadas. Pesquisas comerciais e painéis online foram descartados como âncora.

Dossiê de confiabilidade dos achados
AchadoValorConfiança
Mortes de ciclistas por ano~1.300Alta
Platô da mortalidade na décadaestávelAlta
Alta das internações na década+71%Alta
Razão internações por óbito (2023)~12 : 1Alta
Mortes por atropelamento~60%Alta
Ciclistas no total de mortes no trânsito3,4%Alta
Taxa por 100 mil habitantes0,64Alta
Ciclistas esportivos3,5 a 5,5 miMédia-alta
Razão urbano : esportivo~2 a 3 : 1Média-alta
Ciclistas urbanos7 a 17 miMédia
Taxa por 100 mil ciclistas~6 a 11Média
Incerteza estrutural remanescente. A sobreposição entre urbano e esportivo só é mensurável com cruzamento de microdados (PNS e PNAD por respondente). Enquanto isso não existir, qualquer afirmação de “X% são urbanos” sem faixa é sobreafirmação.

11. Implicações para política pública e mobilidade

Campanhas e infraestrutura desenhadas para o ciclista esportivo não capturam o público que mais morre. A política deveria mirar o deslocamento utilitário em via compartilhada.

Recomendação 1 · Para gestores municipais
Foque na via compartilhada, não na ciclovia de fim de semana

60% das mortes são atropelamentos em colisão com automóvel. O ganho marginal de segregação na via principal é maior do que o de novas ciclovias em parques. Priorize ciclofaixas em corredores de deslocamento pendular, redução de velocidade em vias compartilhadas e tratamento de cruzamentos com história de sinistros.

Recomendação 2 · Para o Ministério da Saúde e IBGE
Medir o ciclista por propósito é pré-requisito

Enquanto a base oficial não classificar o sinistro pelo propósito do pedal, qualquer política nacional opera com dado incompleto. Incluir variável de finalidade em PNAD, PNS ou no próprio formulário do VIVA seria a única intervenção barata e estrutural que destrava a incerteza remanescente deste estudo.

Recomendação 3 · Para mídia e comunicação pública
A narrativa do esportista esconde a vítima real

Cobertura midiática que enquadra ciclismo como esporte tende a reforçar o imaginário do hobby de classe média. A vítima típica é o trabalhador urbano de menor renda indo ou voltando do trabalho. Recalibrar o enquadramento é parte do trabalho de saúde pública.

Recomendação 4 · Para organizações de advocacy
Mapeamento colaborativo é fonte complementar legítima

O custo direto do SUS com ciclistas feridos, cerca de R$ 15 milhões por ano, é fração do custo social real, já que não inclui mortes nem perda de produtividade. O custo total dos acidentes de trânsito é estimado pelo IPEA em R$ 28 bilhões por ano. Enquanto o registro oficial é incompleto, iniciativas como o mapeamento colaborativo do IMPS são fonte complementar legítima.

12. Limitações e transparência

O que este estudo não afirma
#LimitaçãoImplicação
1SubnotificaçãoOs números oficiais são piso, não retrato completo. Há subnotificação reconhecida de sinistros com ciclistas.
2Definições divergentesMortalidade total (SIM), morte hospitalar (SIH) e subconjuntos de atropelamento medem coisas diferentes e não podem ser somados sem ressalva.
3Sem variável de propósitoA separação urbano versus esportivo é inferência indireta. A sobreposição entre os dois grupos não foi mensurada, e a faixa reflete essa incerteza.
4Bases amostraisInquéritos como o VIVA não se generalizam para todo o país.
5Dados secundáriosEste é um estudo de reconciliação. Não substitui pesquisa primária dedicada (survey representativo, instrumentação de via, microdados cruzados).
Tema sensível. Este estudo trata de mortes e lesões. Os números devem ser comunicados com cuidado no enquadramento público. Evite manchetes que personalizem a vítima sem o consentimento da família e que reforcem culpabilização do ciclista.
Transparência e conflito de interesse. Pesquisa independente, sem financiamento externo dedicado. O IMPS tem agenda de advocacy em segurança de ciclistas. O D.Lab é um laboratório de inteligência de decisão. Nenhuma das organizações tem participação em fabricantes, varejo ou seguradoras do setor. Os dados, scripts e nota metodológica estão disponíveis para replicação.

13. Reprodutibilidade

Toda afirmação deste estudo pode ser reconstruída a partir de fontes públicas. A pipeline de análise está organizada em componentes:

Componentes de análise e dados publicados
ComponenteO que fazSaída
Extração DATASUSPipeline para microdados SIM e SIH, recortando ciclistas pelo CID-10.CSVs anuais por UF e faixa etária.
MortalidadeSérie temporal de óbitos, vale e repique, com gráfico de validação.Série 2010-2024, gráfico de tendência.
Estimativa de populaçãoTriangulação PNAD 2015, IPEA, prevalência de uso para trabalho.Faixa urbano e esportivo, razão urbano por esportivo.
ConfiabilidadeReconciliação SIM × OMS × SIH, validação cruzada, taxas por 100 mil.Tabela de reconciliação e mapa de confiança.
Armadilha do métodoÁlgebra de conjuntos sobre populações sobrepostas.Diagrama de Venn e nota metodológica.
Hierarquia de fontesClassificação das fontes por nível de confiança e regra de descarte.Registro de fontes e tabela tier 1, 2, 3.
AuditoriaSete verificações cruzadas de consistência interna.Dossiê de achados e relatório de auditoria 7/7.

Datasets de referência: serie_obitos_ciclistas_BR.csv, estimativa_urbano_vs_esportivo.csv, reconciliacao_indicadores.csv, registro_de_fontes.csv, dossie_achados.csv. Para acesso aos scripts e CSVs, entre em contato.

14. Referências

ABRAMET. Associação Brasileira de Medicina de Tráfego. Levantamento sobre acidentes com ciclistas a partir do SIM e do SIH. 2020.

BRASIL. Ministério da Saúde. Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) e Sistema de Informações Hospitalares (SIH). DATASUS.

IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, PNAD 2015: Práticas de Esporte e Atividade Física. Rio de Janeiro, 2017.

IBGE. Pesquisa de Orçamentos Familiares, POF 2017-2018 (base para estimativa da frota de bicicletas).

IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2019.

IPEA. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Estudos sobre custos e participação modal de acidentes de trânsito.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Global Status Report on Road Safety. Genebra: OMS, 2016 e edições seguintes.

SOUSA, M. H.; BAHIA, C. A.; CONSTANTINO, P. Análise dos fatores associados aos acidentes de trânsito envolvendo ciclistas atendidos nas capitais brasileiras. Ciência & Saúde Coletiva, 2016.

TRANSPORTE ATIVO; OBSERVATÓRIO DAS METRÓPOLES. Pesquisa Nacional sobre o Perfil do Ciclista Brasileiro, 4ª edição. 2024.

Aliança Bike. Pesquisas setoriais sobre frota e uso de bicicletas no Brasil.

Este estudo foi produzido pelo D.Lab Research em parceria com o Instituto Movimento Pedal Seguro (IMPS) como parte da iniciativa de pesquisas abertas em mobilidade e segurança viária. Quer aplicar este nível de análise a uma decisão da sua organização?

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